Estrada





Mais uma vez caí, mais uma vez embriagada por sentimentos que não tenho controle, despindo-me de certezas e banhando-me em agonia.
Por longos anos me vi esquecida, deixada... magoada. Um personagem tornado secundário em sua própria história.
Mas hoje, mulher, sei bem onde quero chegar. Deixei para trás as lágrimas que me afogaram. Agora, vestida em peles que não reconheço, fortalecida por armaduras frágeis, caminho em direção ao desconhecido, jurando estar sempre preparada.
Enganada.
Por todo o tempo que fingi esquecer o que pouco a pouco me consumia, acreditei enfrentar sozinha minha desventura. Enterrei cada memória, fugi de cada pensamento, camuflei cada palavra. Fiz-me surda para os sons que atravessavam o tempo, fechei meus olhos em agonia para cada canto que guardava nossa marca. Sorri, esperando passar. Caí, sem ter como voltar.
Era amor. 
Por que disfarçar?
Enfim aceitei a verdade que me cercava. Encurralada, faltaram-me forças. Reconheci meu inimigo e pude enfim me unir a ele. Não mais neguei sentir, a mim ou a quem quer que perguntasse, confessei, consenti. 
Bem resolvida, reencontrei aquele que motivara todo meu tormento. A vergonha não me cabia mais e esperei enfim provar o sabor da arrogância de quem está no controle. Soube me divertir com palavras bonitas, sufocando a sinceridade nas entrelinhas, observei o receio caminhando a passos lentos em cada nova reação. Mas, cansada, pedi verdade e a obtive. 
"Eu te amo".
Palavras com as quais tanto sonhei, cenas que pensei só terem lugar em minha imaginação, ali, diante de mim. Doeu. A amarga dor de ter seus desejos atendidos, uma dor que conheço bem, sempre estive com ela, sempre me familiarizando de formas diferentes, mas nunca sem doer. Ainda com os olhos molhados, me vesti de orgulho e sinceridade, um fim digno, uma doce conclusão para uma história trágica. Não era aquilo tudo o que sempre sonhei?
Pouco a pouco vi-me perdendo novamente em encantos que nunca foram meus, palavras ditas tão distraidamente que não guardariam quaisquer responsabilidades por si. Fingindo não ver as consequências, deixei-me levar, deixei sentir... deixei ir.
Estava me afogando ainda tocando o chão, como seria se me deixasse levar de vez? Eu sabia a resposta.
Sei minhas fraquezas, aquele olhar capaz de despir minha alma, aquele que me penetra, comanda, condena, acalenta. Aquele olhar. Se minhas forças não são mais minhas ao encontrar aqueles olhos, não há desejo meu que se dure em meu corpo enquanto já não estou mais em mim.
Não posso ficar, não posso me perder. Não aqui. 
Sei o que quero, sei onde, mas não posso buscar enquanto meu peito sussurra um único nome. O adeus faz-se necessário, faz-se silencioso. A distância que nunca foi atravessada tornou-se ainda mais longa,  deixando palavras pelo caminho ela estica-se lentamente, unindo-se ao tempo - que nunca foi nosso - para quem sabe um dia chegar onde deveremos estar.

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